quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Esclarecimento
Quando criei este espaço, a intenção era poder ajudar alguém a compreender como funciona a mente de uma pessoa a quem diagnosticam ser portador de HIV. Se possível, desmitificar o "monstro" e fazer com que tod@s pudessem entender que apesar disso, a vida continua e no fim de contas, continuamos a ser pessoas, a ter sentimentos e a ter que lutar como qualquer outro por levar a nossa vida avante.
O motivo que me tem mantido afastado deste Blog, não é outro que um mau momento pessoal, no qual não me sinto com forças para poder servir de ajuda a ninguém. Se escrevesse o que me vai na alma, provavelmente surtiria o efeito contrário, e tal como vos dizia, esse não é o meu objectivo. Por isso, prefiro esperar a clareza que nos dá o transcurso de algum tempo para poder avaliar as situações sem multiplicar as suas verdadeiras dimensões. Esta espera é fruto da coerência e cordura mental que adquiri junto com a situação de seropositivo. Tal como não gosto que ninguém me diga algo sem medir as suas palavras (embora tente não levar as coisas a peito), prefiro agora manter silencio durante um período indeterminado, que me vai conferir uma visão mais objectiva, mais madura e mais imparcial; com a qual vou poder redimensionar os meus problemas actuais para saber como lhes fazer frente.
Até lá, desejo que tod@s estejam bem e mando-vos um forte e apertado abraço.
Zé
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
sábado, 24 de outubro de 2009
De volta à Vida

Bom, espero nao ter estado fora tempo suficiente para fazer algum leitor perder o interesse no Blog.
É bom estar de volta à cidade, de volta à vida, ao reboliço do metro e ao cheirinho outonal a Castanhas assadas pelas ruas, que tanto me faz lembrar a minha querida cidade invicta. Vem-me sempre à mente o fado do Carlos do Carmo " O Homem das Castanhas" e dou por mim a cantarolar: "Quem quer quentes e boas? Quentinhas! A estalarem cinzentas, na Brasa! Quem quer quentes e boas? Quentinhas! Quem compra leva mais amor p'ra casa!"
Espero que todos estejam a ter um principio de Outono bem quentinhos, bem abrigadinhos do frio e dos virus mauzoes de gripes e afins, e que possam apreciar uma vida repleta de amor, que está lá até mesmo quando nao o vemos ou por qualquer motivo o esquecemos...
Ando em fase bastante Zen, fruto de um livro que estou a ler por recomendaçao de um amigo. E fazendo Juz à Filosofia dessa literatura de cabeceira, só poderia despedir-me de uma maneira:
Muita PAZ
sábado, 19 de setembro de 2009
Elipse Temporal

segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Pastilhas, Comprimidos e outras viagens II
No dia seguinte acordei cedo. Era dia de trabalho e lá tinha eu que cumprir com as minhas obrigações... Sentia como se em vez da cabeça, tivesse uma enorme abóbora colocada em cima do pescoço, e como se tivesse estado toda a noite a beber um qualquer Whisky barato com a respectiva ressaca e a falta de equilibro subconsequente.
Não me lembro de ter tido um dia de trabalho mais comprido... Sentia-me realmente mal. Mas à medida que passavam as horas, ia-me sentindo um pouco melhor. Lembro-me distintamente de sentir as tonturas e os calores num incessante vai-vem ao longo de todo o dia, mas não dei parte fraca, e a "reganha dentes" lá aguentei estoicamente toda a jornada de trabalho.
Estes efeitos secundários acompanharam-me durante vários dias, creio até que semanas, sempre em decrescendo. Actualmente ainda me visitam de vez em quando, mas vou aprendendo artimanhas para evitar tão desagradáveis visitas. Por exemplo, sei que se tomar a medicação com o estômago cheio é mais provável que sinta estes efeitos, por isso, sempre que posso janto mais cedo e assim evito sentir-me mal após tomar a medicação.
Outra coisa são os sonhos... Esses não há como evitá-los. Desde sempre tive uma relação especial com o mundo dos sonhos. Lembro-me de sonhar de criança com coisas que, mais dia menos dia, acabavam por acontecer. Mais tarde, após conhecer a dor da perda de alguém próximo, lembro-me de em sonhos poder conversar com esses seres queridos. Normalmente ao acordar esquecia-me de partes ou por vezes da totalidade dos meus sonhos. Hoje isso não acontece. Mais do que sonhar, de tão vivos que os sinto, os meus sonhos são experiências. Umas vezes agradáveis, outras nem tanto, mas sempre experiências. Não se pode dizer que "de vida", mas experiências muitas vezes repletas de espiritualidade e sensações reais, de presenças e interacções com muita gente; conhecida ou não, que está viva ou não... É como se por fim me apercebesse que pertenço a uma rede de pessoas, ou será de almas, que podem trabalhar em conjunto por objectivos em comum... Para interferir ajudando espiritualmente muitos outros que necessitam essa ajuda. Em conversa com um grande amigo, seguidor da corrente Espírita, fiquei bastante elucidado a respeito destas experiências. Não peço que ninguém compreenda esta parte do meu relato, até porque se poderia perfeitamente dizer que alguém que toma um comprimido que logo de entrada se chama Atripla, está sujeito a divagar pelo "sem sentido", mas sinto que se aproxima a hora de aprofundar um pouco sobre estes assuntos e partilhar a minha visão pessoal sobre as questões da espiritualidade.
Pastilhas, Comprimidos e outras viagens...

Por esta altura, coincidiu uma consulta de rotina, após a segunda análise de sangue para ver como andavam as minhas defesas.
Nada mais longe da verdade... Lá levei eu mais uma decepçao!
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Auto-Ajuda II

quarta-feira, 29 de julho de 2009
O Grupo de Auto-ajuda

quarta-feira, 22 de julho de 2009
Atlântico

segunda-feira, 6 de julho de 2009
domingo, 5 de julho de 2009
O regresso do filho pródigo

É o primeiro regresso ao convívio familiar depois do inicio da terapia anti-retroviral. Desconhecem em absoluto a realidade, e deverão continuar no desconhecimento, mas agora, para além de me preparar para receber tudo o que me queiram dar, terei que estar preparado para que não se note a mentira que escondo. Este segredo que me vai carcomendo a consciência deverá manter-se no obscurantismo. Por um lado por mim, para não suscitar nem pena, nem preocupação, mas também por eles, porque imagino a frustração, o desespero, e a desilusão que representaria para eles o conhecimento do meu estado serológico.
Acostumado a viver vidas múltiplas, não me sinto com forças para manter uma encenação tão elaborada desta vez, porque me sinto ainda frágil, vulnerável, culpado, e até mesmo por vezes conspurcado e revoltado com o mundo... E se diante da sociedade é mais ou menos fácil manter uma barreira que isole o que sentimos daquilo que os outros percebem em nós, diante da família, é bem mais difícil, é virtualmente impossível, porque estão feitos da mesma matéria, porque vêm mais além dessa muralha, porque sentem o que sentimos mesmo sem que o digamos...
Tenho medo. Mas não de ser descoberto. De provocar sofrimento desnecessário. De incendiar uma angústia permanente, impossível de apagar, que teria sido bem mais fácil evitar... mas o que digo eu? "teria sido"... que inocente... Já deveria ter aprendido a não mencionar o que teria sido, mas sim e somente o que é e possivelmente será...
Espero poder manter a farsa... e desligar-me dela o suficiente para poder apreciar os momentos de convívio tão desejado e que tanta falta me têm feito.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Alívio de Luto

Amanhã completa-se um ano desde o falecimento de uma querida pessoa de família. Não sei como encarar a situação, aliás, creio que hoje-em-dia poucos sabem...
Será que o que nos dói é simplesmente um reflexo egoísta por nos vermos privados da companhia de quem gostamos? Ou será que efectivamente o nosso luto se deve à transição a um plano espiritual que nos é mais longínquo?
A realidade da nossa sociedade actual é que a morte foi encasilhada num dos mais férreos tabus. Antigamente, os velórios em casa com as famílias de luto rigoroso, o vai-vem de vizinhas e xícaras de café ( ou até mesmo de alguma carpideira profissional) era um conjunto de rituais que de certa forma traziam a morte para a nossa vida. Uma pessoa vestida de luto, era interpretada como alguém em processo de sofrimento, que obedecia a determinados padrões de comportamento, e ao mesmo tempo evitava também que alguém "metesse a pata" ao perguntar sobre algum assunto mais delicado.
Até as crianças eram as últimas a dar um beijinho no avôzinho antes de se fechar a tampa do caixão.
Hoje em dia, tudo está mais "pasteurizado". O chorar em público está mal visto (obrigandonos a embutir sentimentos que só nos vão complicar o processo de superação), os velórios têm hora marcada de acordo com os horários das capelas mortuárias (o que para algumas pessoas supõe um trauma acrescido já que o que desejariam seria não separar-se do seu ser querido até à hora de o depositar na sua urna), e o tema das criancinhas... bem esse é melhor nem tocá-lo, porque para as crianças de hoje, a morte será certamente algo de extremamente desconcertante, uma vez que estão afastadas definitivamente de todo o processo pelos adultos que não entendem que se as crianças não tomam parte na morte de um ser querido, não entenderão que a sua própria vida é finita e que a vida deve ser interpretada como algo que terá um fim, logo haverá que não perder tempo com "birras" e maus humores que não levem a nada.
Entendo que numa sociedade como a actual, na que é preciso manter-se jovem a toda a custa para continuar a viver o consumismo, não convenha nada que as pessoas se dêem conta de que a vida tem fim... mas esta situação origina comportamentos pouco saudáveis que muitas vezes acabam nas consultas de psicologia ou até mesmo com recurso a psicofármacos (alguns deles com resultados questionáveis e com efeitos adversos mais que óbvios);
Por isso, há um ano atrás, vesti o meu fato negro com a minha gravata negra (aquela dos tempos de estudante que sempre tem mais significado para mim) e tentei viver o luto sem me poupar a nada.
Um ano depois, a sensação de perda ainda não está superada de todo, mas sinto que o processo de superação está a decorrer sem sobressaltos.
Além disso, apenas um mês e meio depois da morte desta pessoa de que vos falo, fui diagnosticado como seropositivo, o que me levou a pensar na morte ainda mais na primeira pessoa. Apenas 3 meses depois disso, comecei a tomar a medicação, e um dos efeitos secundários que tem é precisamente sonhar de forma extremamente vívida e real. Aproveito o "bilhete grátis" para essas viagens e visito quem já cá não está.
Devo dizer-vos que nesse plano semi-consciente, temos conversas do mais interessante e muitas vezes servem para me tranquilizar no que respeita à minha própria morte e à minha situação pessoal.
Só não sei o que será do meu corpo quando o dia chegar, mas como não posso fazer mais do que um testamento vital expressando a minha vontade, uma vez que aconteça, deixarei que outra pessoa se (pre)ocupe desses detalhes...
terça-feira, 23 de junho de 2009
...e eu tao longe...

Por estes dias, sei, imagino e sinto a alegria que paira pelas ruas do meu querido Porto. São dias de festa. De manjericos e de sardinha assada. Não faço a mais pequena ideia do impacto que a crise financeira possa ter tido na vontade de comemorar do meu povo.
Se nunca foi uma festa burguesa, o S. João, bem apelidado de Santo Popular, é festa para todos, embora bem me lembre eu que desde a minha infância até ao ultimo S. João vivido em directo, este sofreu uma transformação abismal em mais uma festarola consumista na qual já não importava tanto o saltar das fogueiras e o compartir a sardinhada com os vizinhos, mas sim, quem tinha o maior manjerico e quem tinha o martelinho da moda. Haverá males que vêm por bem? Poderá a falta de recursos empurrar o povo para esse espírito de partilha e de verdadeira festa popular de outrora?
Bem... resta-me dizer que eu... longe de todos esses aromas tão familiares nestas datas, ando por terras onde cheira a azeitonas e a terra quente. Não poderei festejar como bom portuense. Mas além disso sinto já que não devo. É o que tem viver fora da terrinha, no fim de contas, não celebramos as nossas festas, nem sentimos as dos que nos recebem...
terça-feira, 31 de março de 2009
A igreja Católica contra o Preservativo
Parece ser que apenas algum "rebelde" nas fileiras da igreja se atreve a tomar uma posição coerente com a manutenção da vida humana. Mas há algo que me perturba..."Têm uma obrigação moral de se prevenir e de não provocar a doença na outra pessoa(...)Há a obrigação moral de usar o preservativo"... será que o Sr. Bispo de Viseu me criticaria muito se eu argumentasse que ninguém é infectado de HIV por outra pessoa, mas sim que se infecta de HIV por manter relações sem protecção com outra pessoa (pondo que esta é a via de contágio mais frequente).No meu caso pessoal, considero que me infectei com HIV, e não culpo ninguém por isso. Se acaso a mim próprio. Mas o que está claro é que a obrigação (moral, ética, comportamental, cognitiva... deixo à escolha do freguês)de colocar meios de protecção numa relação sexual, é de igual responsabilidade para todos os participantes, e não somente para os que estão diagnosticados com HIV. Até porque se sabe que estes normalmente são os primeiros a sentir o peso do estigma e os problemas de consciência no caso de não usarem o preservativo.Além disso, bem mais perigoso é uma relação sem protecção onde nenhum dos intervenientes tem um diagnóstico efectuado, nem as provas pertinentes. Uma ENORME quantidade de gente está infectada e não o sabe, e a maioria dos contágios que se registam hoje em dia, são justamente provocados por esta situação.Quanto às "Igrejisses" em questão, parece que apenas o Sr. Bispo das forças armadas tem uma noção da realidade. Todos sabemos que a posição do Sr. Bispo do Porto é utópica. Mas a meu ver compreensível.Passo a Explicar:Diz o Sr. Bispo do Porto que o problema é comportamental. eu entendo o seu ponto de vista, embora não o comparta.Vista a actual crise de vocações na igreja católica, o que este senhor pretende é que todos sejamos celibatários, e por consequência todos dignos do sacerdócio, e assim acabar com a SIDA. Seria um método eficaz, se fossemos todos Santos. Mas como somos apenas Humanos, não creio que seja viável. Nem mesmo entre os que se supõe que são celibatários por vocação religiosa, já que é conhecido que na sua condição de Humanos e pecadores, até estes "fornicam" e seguramente que nem sempre com preservativo. Que escândalo, não é? Eu conheço pessoalmente casos.Bem melhor será usar o preservativo e penar no Purgatório para todo o sempre, que ser diagnosticado com HIV e ter de viver com o peso desta condição para o resto da vida. (Vão por mim... eu SEI)E aquilo que eu recomendo a toda a gente, isso sim. quer tenham tido relações sem protecção ou não, é que realizem com frequência o teste do HIV. É a única maneira de conseguir um diagnóstico precoce (HIV+) e evitar uma situação bem mais grave que é ter SIDA.
Abraços
Zé Ninguém
sábado, 28 de fevereiro de 2009
O início... (Parte II)

Mas não houve sorte. Não pude localizá-lo.
Só duas horas mais tarde, depois de ter empurrado algo de comida pela goela abaixo sem nenhuma vontade, com cara de Quarta-feira de Cinzas, e de ter saído para a rua, com destino ao trabalho, voltei a tentar contactá-lo e desta vez sim, pude por fim falar.
Bem... falar não foi exactamente fácil. Ao ouvir essa voz familiar só pude sentar-me de novo num banco e soluçar... Do outro lado ouvi-o mudar de tom de voz várias vezes. De surpresa pela chamada a horas pouco habituais, passando por preocupação, e chegando mesmo a um pouco de desespero com alguma lágrima à mistura por não saber o que se passava e só me ouvir chorar...
Por fim, reuni algo de fôlego e disse:
-"Tenho HIV"
Nesse momento, notei-lhe uma nova mudança no tom de voz.
Procurou acalmar-me e convenceu-me a desistir da ideia de ir trabalhar nessa tarde. Disse-me para dar uma desculpa, mas que de nenhuma maneira fosse trabalhar. E que procurasse não estar sozinho. Lembrou-me que tenho mais amigos, algum mais próximo geograficamente e que procurasse alguém de confiança.
Assim fiz.
Vagueei uma hora por entre a gente num centro comercial. Tudo me provocava uma avalanche de sensações. Sentia uma revolta imensa pelo facto de o mundo continuar como se nada se passasse... Como se atreviam os demais a continuar a divertir-se? Como se atreviam a sorrir? Sentia que os olhares das pessoas me despiam de toda a dignidade e me reprovavam a própria existência. Era como se todos soubessem o que me estava a acontecer...
Tive de fugir. Refugiei-me no exterior, atrás dos meus óculos de sol, e na ponta traseira de um cigarro que fumava furiosamente atrás do anterior.
Por fim, reuni coragem e liguei a uma amiga.
Deviam ser umas 14h30 mais ou menos... e enquanto me atendeu, deve ter percebido que algo se passava. Só lhe disse que precisava que nos víssemos, e disse-me que nesse preciso momento, deixava tudo o que estava a fazer e vinha ao meu encontro. Sem perguntar mais nada... Mais tarde confessou-me que quando atendeu o telefone sentiu um arrepio muito estranho e que por isso não fez perguntas. Sentiu que de verdade era necessário que viesse ter comigo.
Passados uns 15 minutos, já tinha chegado.
Não vinha sozinha, trazia o namorado pelo braço.
Cumprimentámonos e ao fim de poucos minutos já a catarata de lágrimas brotava de novo pelo meu rosto.
Sem saber o porquê das minhas lágrimas, ambos me abraçaram com força e me fizeram sentir acompanhado.
Foi então que lhes disse.
Caminhámos durante umas horas por uns jardins próximos, muito calmos, serenos, sumamente bonitos, e ao longo da caminhada íamos desfiando, uma por uma, as ideias e as emoções que eu ia sentindo. Eles, rebatiam e faziam-me ver que não era o fim, que tinha que reunir forças para continuar com a minha vida e que podia fazer uma vida inteiramente normal.
(Que bom é ter amigas Psicólogas nestas alturas... Sabes perfeitamente em que momento deixam de falar como amigas e o Chip de profissional entra em acção)
Acabei exausto.
Levaram-me para casa deles e sem dar por isso adormeci no sofá. A Montanha-Russa de emoções acabou por me derrotar.
Quando acordei, demonstraram-me uma vez mais que a amizade desinteressada existe.
Tinham estado os dois, no mais extremo cochicho, à procura na Internet de algum grupo de auto-ajuda sobre o HIV ao qual eu pudesse acudir.
As possibilidades eram variadas (sorte de quem vive numa cidade como Madrid), e depois de ter visto e analisado com eles cada uma delas, decidi-me. A próxima reunião era daí a 3 dias...
...Continua...
De regresso
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
O Início
Era mais um dia de verão, de mais um verão em que não podia desfrutar de férias, nem de um muito merecido descanso. A situação laboral não mo permitia.
Tinha feito análises uns dias antes porque me tinha aparecido um gânglio inflamado e estava morto de medo de que pudesse ser algum tipo de carcinoma. Nessa manha fui ao consultório da minha médica de família para saber os resultados das ditas análises, o que se revelou uma perfeita perda de tempo já que me fez ir lá, mas ainda não os tinha.
Fui tratar de uns assuntos pendentes de trabalho. Passei a manha nisso, e tive uma excelente notícia. Por fim, depois de muitos meses de luta tinha conseguido algo que muito ansiava. Um objectivo cumprido! Estava feliz!
Voltei para casa e enquanto se ultimavam os preparativos para o almoço, dediquei uns minutos a ler os meus mails. Estava nesta entretida tarefa, quando de repente tocou o telefone.
A partir desse momento senti como se o tempo tivesse parado.
-"Estou? É o Sr. Zé Ninguém?"
-"Sim, sou. Faça o favor de dizer."
-"Fala a sua médica. Era para ver se podia vir ao consultório. Preciso falar consigo."
-"Vou já para aí. Não demoro nada"
Saí à pressa de casa, sem saber o que me esperava. Não me saía da cabeça a ideia do carcinoma.
Quando cheguei ao consultório, ela estava à minha espera, e tudo estava já deserto. Ninguém... como se não houvesse mais ninguém no mundo... Tudo me parecia sumamente estranho.
-"Entre"
-"Com sua licença. Queria falar comigo?"
-"Sente-se."
O tom era solene e o semblante quase mórbido. Houve um momento de silencio sepulcral que me provocou um arrepio gelado.
-"Já tenho os resultados das suas análises. Foram detectados anticorpos anti-HIV no seu sangue."
Não podia acreditar no que estava a ouvir. A minha cabeça começou a andar a uma velocidade alucinante, e o meu coração acompanhou o ritmo frenético.
Pela primeira vez na minha vida, fiquei sem reacção. Não podia ser... mas... isto não me podia estar a acontecer... a mim? Não pode ser!... Estas coisas só acontecem aos outros... a pessoas inconscientes que têm comportamentos de risco... e eu não os tenho! Sempre fui muito cauteloso com estes assuntos.
-"Tem a certeza? Não pode haver engano?"- era mais fácil a negação do que assumir tal facto. Que saída tão pouco nobre.
-"Estes testes são extremamente fiáveis. Não pense que é o fim... certamente lhe esperam uns dez anos de vida saudável pela frente"- Que saída mais infeliz. Só bastante mais tarde pude dissipar os fantasmas que esta afirmação me originaram na mente.
-"Dez anos? Mas eu só tenho trinta. Dentro de dez anos terei quarenta..."
O silencio que me dedicou deixou-me ainda mais desesperado.
-"Quer dizer que começa a corrida... começa a minha fuga da infecção ou da doença que um dia vai acabar comigo?"
-"Bem... não é bem assim... Hoje-em-dia as coisas já não são tão dramáticas. Existem muitas medicações que podem fazer com que viva uma vida perfeitamente normal..."
Nesse momento essas palavras eram perfeitamente impossíveis de assimilar. Normal??? Como podia algo voltar a ser normal desse momento em adiante?
-"Vou mandá-lo a uma consulta da especialidade no Hospital para que lhe façam mais testes, para ver em que estado se encontra. Tenho pena de não lhe poder ser de mais ajuda, mas hoje é o meu último dia de trabalho antes de ir de férias. Se quiser, quando regressar podemos ver-nos e conversamos um pouco mais sobre o assunto."
Não podia acreditar neste personagem... Lança-me uma bomba destas e pira-se de férias... Traidora!
Queria levantar-me e sair dali, mas fraquejavam-me as pernas. Estava bloqueado. Era como se tivesse um fardo de várias toneladas em cima...
Respirei fundo, e consegui por-me de pé. Ela repetiu:
-"Sinto muito não poder fazer mais nada..." - mas essas palavras não me serviam de consolo. Nesse momento, e num acto de desesperação, tentei apelar a algum fio de humanidade existente na pessoa que tinha à minha frente e disse-lhe:
-"Há uma coisa que pode fazer por mim."- Apanhei-a desprevenida... Estendi os braços na sua direcção e abracei-a... mas era como abraçar um bloco de gelo. Que pouco tacto tem esta gente. Que falta de humanidade. Que falta de compaixão, de sensibilidade humana e humanitária. E é isto uma profissional da saúde.
Como não me serviu de consolo, despedi-me educadamente e saí.
Os meus passos eram guiados por uma vontade que não era a minha... quando me encontrei fora do edifício, não me senti em condições de conduzir o carro, e decidi sentar-me um momento num banco de jardim a fumar um cigarro.
A minha mente dava voltas e voltas e era como se o meu mundo estivesse prestes a acabar. Lembro-me nesse momento de ter sentido raiva até do cantar dos pássaros que por ali esvoaçavam... Como se atrevem? E as crianças num parque das redondezas continuavam a brincar, felizes e a entoar gargalhadas que me faziam sentir uma revolta infinita.
Quando acabei o cigarro fui, mecânicamente sentar-me ao volante do carro em direcção a casa. Não sei em que pensava. Era como se fosse um autómato.
...Continua...
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
A VIHda de um Zé Ninguém
O meu caso não é diferente, mas antes de entrar nessa temática devo falar-vos um pouco sobre a minha pessoa:
Vivo há cerca de 4 anos em Espanha. Poder-se-ia dizer que sou um "Cérebro em Fuga", termo tão familiar nos meios de comunicação social em Portugal, porque vim com o meu canudo debaixo do braço quando me decidi deixar as minhas raízes e empreender esta jornada, esta nova etapa da minha vida. Poder-se-ia, mas não seria a verdade. Na realidade a minha fuga foi por AMOR.
Sim, por amor deixei tudo e mudei de país para compartir os meus dias com a pessoa que amo.
Aqui não me preocupo pelas aparências, pelos diz-que-disse tão característicos da sociedade semi-provinciana em que estava inserido, apesar de viver na segunda cidade portuguesa, o Porto. Cidade essa que por um lado me estrangulava e não me deixava ser quem eu queria, mas que por outro, e vista à distancia me acentua o lado nostálgico e melómano, e tantas saudades me deixa...
Não me arrependo de ter vindo. Prova disso é que me caso dentro de 3 dias. Coisa só possível pelo facto de viver neste país e não no meu.
Por outro lado, nunca tive medo ao trabalho e devo dizer que sou um dos últimos "Homem dos sete instrumentos" (espécie cada dia mais em vias de extinção) porque já trabalhei em coisas muito diversificadas e nunca me caíram os anéis. Claro está que na minha área específica de trabalho, estou melhor em Espanha do que poderia estar em Portugal, apesar de que a crise mundial que se vive por estes dias me esteja a afectar o bolso e as noites de sono...
Chegados a este ponto, estou certo de que algum leitor mais impaciente estará a pensar:
"Mas quando é que o tipo se decide a dizer afinal que coisa tão traumática lhe aconteceu???"
Conheço a impaciência... temos uma relação de íntima cumplicidade... afinal, convivemos há quase 31 anos.
Bem, o motivo que me levou a criar este blog não é outro que não o de compartir com quem tiver a amabilidade (e a paciência) de ler, os meus desabafos... os desabafos de uma pessoa que convive há meio ano com o VIH.
Que três letras tão tremendas, não são?
Tenho uma mente inquieta, quem me conhece sabe disso... e não penso usar este espaço somente como um pano de lágrimas e choramingar as minhas desgraças.
Apesar de me encontrar num isolamento quase completo acerca da actualidade portuguesa, tentarei criar um espaço aberto a temas que ocupem dita actualidade assim como temas menos efémeros, relacionados com a condição humana e com a vida quotidiana sob os mais diversos pontos de vista. Haverá tempo para tudo, mas sinto-me na obrigação de levar a cabo uma outra missão bem mais nobre do que essa.
Haverá leitores que seguramente conheçam alguém portador do mesmo vírus, e que certamente não sabe como lidar com a situação ou simplesmente não tem coragem para tocar no assunto.
Aí entro eu.
Espero poder aclarar qualquer dúvida sobre o tema, e ao mesmo tempo aprender algo da interaçao com os leitores.
Se puder ajudar a que a vida de outra pessoa que se encontre na mesma situação que eu seja um pouquinho menos desagradável, certamente terei o prazer a satisfação de cumprir com um dever auto-imposto.
Espero encorajar com estas linhas a participação de quem por aqui passar.
Um abraço e até breve,
Zé Ninguém