segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Pastilhas, Comprimidos e outras viagens...
O facto é que acabei por me afastar um pouco do "F". Achei que já me bastava com os meus próprios problemas e decidi descansar dos problemas dos outros.Por esta altura, coincidiu uma consulta de rotina, após a segunda análise de sangue para ver como andavam as minhas defesas.
Quando pela primeira vez me deram uns resultados com quantificações de todo tipo, procurei nos outros membros do grupo ajuda para os entender. Pelo que fiquei a saber, uma carga viral de 3184 cópias do vírus no sangue era um valor favorável, já que estas podem ir até 50 000; por outro lado, uma contagem de linfócitos CD4+ de só 317 é já bastante baixo, já que se recomenda medicação para valores abaixo dos 350, mas o médico lá me explicou que o que realmente importa é a tendência dos valores, mais do que estes num determinado momento. Isto fez-me ficar esperançado de que variariam de forma favorável, já que com certeza estes valores tão baixos se deveriam ao stress do diagnóstico, e que assim que a minha vida se normalizasse, eles também o fariam.
Nada mais longe da verdade... Lá levei eu mais uma decepçao!
Quando me deram os segundos resultados, lá vinha uma Carga Viral de 9 104, que continuava a ser baixa e portanto não augurava nada mau, mas lá estava também uma contagem de CD4+ de apenas 270. A realidade é que eu não me sentia nada doente, bem pelo contrário. Eu que sempre fôra um frasquinho de cheiro, que cada dois por três me punha doente, na realidade encontrava-me estupendamente. Mas bem... em tom mais ou menos solene e ao mesmo tempo mais ou menos tranquilizador, lá me disse o especialista que havia chegado a hora de iniciar a terapia anti-retroviral.
Mais uma vez, aqui tivemos peripécias para todos os gostos...
Havia pouco tempo, saíra para o mercado um medicamento constituído por três componentes, reunindo assim uma tripla terapia (ou Cocktail terapêutico como alguns preferem chamá-lo... a mim não me importaria nada que fosse apenas um Cocktail...) tudo isto num só comprimido. Excelentes notícias, já que apenas teria que tomar um comprimido por dia, ao deitar, reduzindo assim as possibilidades de me esquecer de alguma toma e portanto de reduzir a eficácia do tratamento ou de que o vírus desenvolvesse resistências à medicação. Até aqui tudo bem, mas confesso que fiquei algo "de pé atrás" quando me recomendou não ler a bula do medicamento, para não me predispor aos possíveis efeitos secundários!...
Obviamente que uma mente inquisitiva como a minha, não pôde resistir a semelhante tentação, e foi exactamente a primeira coisa que fiz quando cheguei a casa...
Li e reli com serenidade o prospecto. Na verdade, até havia motivos para ficar assustado, sobretudo se tivermos em linha de conta que consta da lista de possíveis efeitos secundários ao medicamento um fenómeno chamado Acidose Láctea que na maioria dos casos deriva em Morte... Ora, a morte como efeito secundário é um pouco forte, diria eu... mas como também estava disposto a cumprir com a medicação pelo maior tempo possível, decidi recusar-me a sofrer este efeito secundário... que me dessem outros, mas esse não até porque eu tinha que continuar a medicar-me a não podia fazê-lo morto!...
Assim, quando chegou a hora de nos deitarmos, o meu amor lá me tinha posto um copo de água na mesinha de cabeceira e o frasquinho de Atripla mesmo ao lado.
Como se fosse um cerimonial que começava e que se repetiria de maneira ritual ad eternum, levantei o copo e disse: "Cá vai disto!"
A chapola não era nada fácil de engolir... sobretudo tendo em conta que são 1045mg de pastilhao! Mas com boa vontade, passou.
O mais curioso de tudo foi que adormeci como um bebé, e lembro-me de pensar: "já está, isto não custou nada!"... Engano outra vez!
Passada uma hora mais ou menos, acordei como se estivesse nas fornalhas do Inferno!!! Sentia um calor horrível, e isto que estávamos em pleno mês de Dezembro, com temperaturas exteriores da ordem dos -3ºC.
Mas eu ardia! Sentia-me arder como se estivesse deitadinho numa pira e com umas tonturas tão fortes que era como se essa pira estivesse num barco à deriva no meio do mar tempestuoso.
Por momentos senti-me na "barca da fantasia", aquela que ainda arde ao largo, como dizia o Pedro Ayres de Magalhães, tão bem interpretado pelos Madredeus. E de tanto arder e sentir-me à deriva, acabei por espernear até acordar o meu amor. Levantou-se de um salto, e veio pôr-se ajoelhado do meu lado da cama. Dizia que ao toque, não me sentia quente, mas eu não aguentava mais... então, foi buscar um copo de água que eu bebi furiosamente. Trouxe uma bacia de água fria e uma toalha... pacientemente foi-me colocando a toalha molhada pela testa, pela nuca, pelo peito... Não sei quanto tempo esteve nisto, mas sei que só assim acabei por voltar a adormecer... sentindo-me cuidadosamente atendido por quem me ama... Jamais esquecerei este seu gesto. Mais uma grande prova de amor, daquelas que vêm exactamente quando mais delas precisamos...
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Auto-Ajuda II
A noite acabava sempre da mesma maneira. Depois de uma reunião em tons mais ou menos sóbrios, íamos um grupo de uns 8 ou 10 jantar ao restaurante do Sr. Manuel.
O Sr. Manuel, trasmontano de gema radicado em Madrid há mais de 20 anos, gerencía um restaurante antigo no centro do bairro da Chueca, junto com a sua esposa e filhas. Claro que ao entrar pela primeira vez, lá tive eu que dar com os olhinhos num galo de Barcelos que nos vigiava do cimo da prateleira mais alta, juntinho às garrafas de aguardente caseira e ao tecto. Foi quando comentei com algum dos comensais a presença do familiar bicho, que me disseram que os donos do restaurante também eram portugueses e por cortesia, lá entablei conversa com eles em Português.
Aqui era onde verdadeiramente caíam as mascaras e cada um falava livremente de si e das suas experiências. Sem as reservas do grupo, e num tom mais distendido e cúmplice (cumplicidade por vezes compartida com o vinho do jantar) aqui era onde se viam as verdadeiras cores de cada um. Entre eles, havia de tudo, desde o solitário desesperadamente cansado dessa condição, o amigo picaresco que acabava sempre por confessar a sua predilecção por determinados jogos sexuais, o experimentado guia de museu, sempre com peripécias que contar tanto sobre os torpes visitantes do museu, como dos entremeios do mundo da cultura com o que sempre nos surpreendia, e uma soma de outros personagens, cada um com um apelativo próprio e especial.
Quando nestas tertúlias alguém se queria referir ao nosso denominador comum, em lugar de chamar-lhe VIH, chamava-lhe "Frederico". Assim, todos éramos "amigos do Frederico" e quem estivesse a ouvir, não tinha porque entender do que falávamos. Este recurso pseudonímico era de autoria do guia de museu, sobrevivente desde há quase 25 anos do "Fred", e em tempos em que a simples alusão ao termo VIH ou SIDA paralisavam meia cidade de cada vez que se proferiam. Era como uma palavra de código que herdamos dos tempos da resistência...
Entre estes personagens, lá estava o "F"de quem vos falei anteriormente. O "F" chegou ao grupo no mesmo dia que eu. Tinha 41 anos e vinha de um internamento hospitalar no qual lhe tinham informado da sua seropositividade. Chegou de rastos...até eu que nesse dia estava necessitado de ser alvo de consolo, acabei por tratar de o consolar a ele, e é que sempre há alguém em pior situação que nós.
Para além do problemático estado de saúde do "F", havia outros factores agravantes. Encontrava-se desempregado e sem qualquer subsídio, e para cúmulo, os "amigos" com quem compartia apartamento, atiraram com ele para a rua quando ele deixou de poder pagar o aluguer do quarto. E andava esta criatura a dormir nas caixas multibanco ou de vez em quando numa sauna em que o porteiro era seu amigo e o deixava entrar sem pagar. Ora tudo isto em cima de um tipo só e tudo ao mesmo tempo... era de bradar aos céus!
Nos nossos jantares lá o levávamos connosco e entre todos repartíamos o preço do menu dele; sempre era uma ajuda. Mas todos éramos conscientes de que não era solução para nada... Eu, talvez por ser tão novato no assunto como ele, era alvo dos seus desabafos, e acabava por regressar a casa ainda mais carregado.
Fiquei a saber que era um ex-sub-oficial militar de carreira, expulso da Marinha quando um tenente também homossexual o descobriu num lugar de ambiente num dos portos por onde passavam. Dupla moral de alguns... que são duplamente injustos. Depois disso, chegado a Madrid, envolveu-se na vida politica activa, até se dar de caras com a hipocrisia dos políticos e passar de um bando de direitas para nada menos que o partido comunista que acabou por ser o único que não o excluiu nem julgou por ser quem era...
Enfim, um personagem desses que uma vez que te conta o seu percurso de vida, e as suas origens, só não choram as pedras da rua... filho de uma prostituta, nunca conheceu o pai, e viveu na miséria grande parte da sua vida. Uma infância a dormir sobressaltado pelo entrar e sair da mãe acompanhada pelos "amigos" e abusado sexualmente por um deles numa ausência da mãe, por vezes o difícil é entender como alguém pode manter a cordura e a sanidade mental depois de um percurso destes...
Por isso, um dia, talvez a minha terceira ou quarta visita ao grupo, enquanto acabou a reunião, perguntei-lhe se tinha onde jantar e dormir nessa noite. Respondeu-me que não, e decidi levá-lo comigo para casa. O meu jantar era modesto, mas podia oferecer-lhe uma cama por uma noite, uma refeição quente, um duche e alguma roupa limpa. Ele aceitou e lá viemos para minha casa.
Na manha seguinte lá o levei de volta para o centro e despreocupei-me. Na seguinte reunião acabei por comentar entre dentes a um dos companheiros com quem tinha algo mais de confiança o ocorrido e perguntou-me se tinha corrido bem a coisa... fiquei preocupado. Obviamente interroguei o porquê da pergunta, ao que me respondeu que o "F", apesar da miséria em que vivia e de tudo o que lhe estava a acontecer, não deixara antigas dependências substanciosas... repassei mentalmente tudo o que tinha em casa antes e depois da sua passagem por lá, e não dei por falta de nada... Lembro-me de pensar: seria demasiado, "morder a mão que te dá de comer" mas nestas situações nunca se sabe...
quarta-feira, 29 de julho de 2009
O Grupo de Auto-ajuda
Ao aproximarmos do primeiro aniversário do meu diagnóstico, sinto que devo avançar um pouco mais o relato com que iniciei o Blog.
Assim, aqui vai:
Efectivamente, a reunião do grupo de Auto-ajuda era numa segunda-feira á tarde. Lembro-me de ter saído do trabalho, umas horas antes, e como estava perto, ir para uma esplanada fazer horas. Telefonei para a associação para saber exactamente a que horas era a reunião, e disseram-me que era só às 19h30, mas que se era a primeira vez que ia, que fosse à volta das 18h00 para que me fizessem um "acolhimento".
Os minutos na esplanada custavam a passar... Apesar do meu Caramel Machiato e do fresquinho que emanava da esplanada contígua que tinha um sistema de aspersores de névoa que são uma delícia para os Verões quentes de Madrid... Nem o livro que trazia entre mãos me ajudou a manter-me paciente enquanto esperava a hora de ir... não estranha, a quem tranquiliza o "Vida e Mortes" do Faustino Cavaco??
Confesso que hesitei... Preferia entrar directamente numa sala com um grupo grande de gente desconhecida, sem levantar grande reboliço, e ir-me fundindo pouco a pouco com a paisagem... mas não, tinham que me "acolher", ou seja, fazerem-me uma entrevista pessoal com um técnico capacitado para o efeito, para avaliarem em que estado me encontrava e há quanto tempo me tinham dado a notícia, para me derivarem a serviços de Psicologia ou Assistência Social no caso de ser necessário.
Na realidade, a pessoa que me acolheu foi muito simpático. Quis saber até que ponto eu estava informado acerca de VIH e de como viver com ele, e com que apoios contava eu nesse momento.
Depois de conversarmos, levou-me pela mão a uma sala onde estava o grupo reunido: Eu morria de vergonha.
Quando se abre a porta, vejo muito pouca gente, seriam uns quatro ou cinco, que interrompiam o que estavam a dizer e levantavam os olhos para mim. Sempre detestei estas situações em que, queiras ou não, as pessoas acabam por te expor a enjuizamento público, mas não tinha outro remédio! Não li no olhar de nenhum deles nada que pudesse interpretar como ofensivo ou reprovador. Não, vi olhos abertos olhando de frente e sorrisos compreensivos e amáveis. Fiquei mais tranquilo.
Estavam a passar a palavra de um em um, contando quem eram e como lhes tinha corrido a semana. Havia de tudo, desde gente que convivia com o VIH há 20 anos, até outro que como eu chegou nesse dia por primeira vez (após internamento hospitalar, deste personagem em concreto vou-vos falar mais adiante);
Na realidade, era tranquilizador ver gente que, convivendo com o vírus há anos, e tendo passado pelo pior da epidemia, da descriminação, das medicações aos 25 comprimidos por dia, da desaparição de todo o seu ciclo de amigos, do estigma da doença, da descriminação laboral, da Lipodistrofia que deixa marcas bem visíveis sobre os que vivem com este problema... Ah, mas era para vê-los. Todos bem dispostos, falando de namoricos de alguns, de problemas de outros, era como um encontro entre irmãos. Verdadeiros irmãos de sangue. Claro que como todos os irmãos, por vezes surgem diferentes opiniões sobre determinado tema, mas como irmãos, o assunto acaba por ficar solucionado.
Senti-me como um deles... um irmão.
Chegou por fim a minha vez de falar. Disse o meu nome e que estava diagnosticado havia 3 dias. Comecei a frase com muita vontade, mas a voz embargou-se-me a meio e creio que entenderam o final por dedução. Segurei as lágrimas como pude enquanto algum dos outros tratava de me tranquilizar.
"Os primeiros dias são os piores, depois vais ver que até nem pensas nisto e que fazes uma vida normal... Olha para nós, não parecemos gente normal?" Diziam isto no meio de um certo sarcasmo, mas a verdade é que me ajudou a ter fôlego para lhes contar a minha história que ouviram com todo o interesse.
No final, relembraram-me as regras do grupo. Confidencialidade, respeito, não emitir juízos de valor nem criticar os outros, respeitar o turno de palavra dos outros, não dar conselhos...etc.
Antes de que terminasse a reunião, chegou um elemento novo, esse sim com mais problemas que eu, e que mexeu comigo... mas isso é outro capítulo.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Atlântico
Meu velho amigo, quanto tempo sem nos vermos... Fico feliz pelo recebimento.
Não deixaste de rugir as tuas ondas ao ver-me chegar.
Quanta saudade nas tuas brancas espumas...
quanto da essência um do outro encerramos...
E esse perfume tão característico que emanas a maresia...
Vejo que os teus gostos musicais não mudam, e alegro-me por isso. O coro de gaivotas e o chocalhar de búzios é a melhor banda sonora para um reencontro como o nosso...
Por vezes, nas minhas longas ausências, sinto o teu sabor nas lágrimas que verto ao ter-te longe, e ao mesmo tempo choro e sorrio.
Sorrio porque sei que sempre estarás aí à minha espera... e choro porque ter-te longe significa não só a distancia física que há entre nós, mas também de saudades pelo bem que me fazes... porque ter-te longe é sinónimo de estar longe de mim... de quem fui e de quem sou. O meu coração divide-se em mil pedacinhos cada vez que me afasto de ti.
Tenho pena de não ser intemporal como tu. A vida é breve para tantas ausências. Espero algum dia poder repousar bem perto das tuas lânguidas águas, num abraço tormentoso e alvoroçado, e por fim, reunir fisicamente as essências de nós os dois, que teimo em separar...
Até um dia, meu querido Atlântico...
segunda-feira, 6 de julho de 2009
domingo, 5 de julho de 2009
O regresso do filho pródigo
Volto em breve, depois de muitos meses de ausência ao seio familiar. É uma visita de necessidade, de reencontro, de amor e de saudade, mas ao mesmo tempo de incertezas e de mentiras.É o primeiro regresso ao convívio familiar depois do inicio da terapia anti-retroviral. Desconhecem em absoluto a realidade, e deverão continuar no desconhecimento, mas agora, para além de me preparar para receber tudo o que me queiram dar, terei que estar preparado para que não se note a mentira que escondo. Este segredo que me vai carcomendo a consciência deverá manter-se no obscurantismo. Por um lado por mim, para não suscitar nem pena, nem preocupação, mas também por eles, porque imagino a frustração, o desespero, e a desilusão que representaria para eles o conhecimento do meu estado serológico.
Acostumado a viver vidas múltiplas, não me sinto com forças para manter uma encenação tão elaborada desta vez, porque me sinto ainda frágil, vulnerável, culpado, e até mesmo por vezes conspurcado e revoltado com o mundo... E se diante da sociedade é mais ou menos fácil manter uma barreira que isole o que sentimos daquilo que os outros percebem em nós, diante da família, é bem mais difícil, é virtualmente impossível, porque estão feitos da mesma matéria, porque vêm mais além dessa muralha, porque sentem o que sentimos mesmo sem que o digamos...
Tenho medo. Mas não de ser descoberto. De provocar sofrimento desnecessário. De incendiar uma angústia permanente, impossível de apagar, que teria sido bem mais fácil evitar... mas o que digo eu? "teria sido"... que inocente... Já deveria ter aprendido a não mencionar o que teria sido, mas sim e somente o que é e possivelmente será...
Espero poder manter a farsa... e desligar-me dela o suficiente para poder apreciar os momentos de convívio tão desejado e que tanta falta me têm feito.
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